Sem muitas reviravoltas ou velocidade desmedida, Cisne Negro tem um ritmo gradativo, onde cenas do cotidiano possuem a sua carga emocional sem apelar para uma adrenalina explícita.
A tensão do filme se dá de forma psicológica nas inter-relações e a forma de se enxergar perante ao meio em uma busca por aceitação e um tipo de autoaceitação velada, que aos poucos se desvela à medida em que o Cisne Negro começa a aflorar através de Nina, uma bailarina que se vê diante de uma grande oportunidade em sua carreira, interpretar o Lago dos Cisnes.
O filme fala sobre arte, mas principalmente sobre limites, e os perigos de os transpor ao buscar uma perfeição que sabemos ser inalcançável, esse é o dilema da protagonista. Morando com sua mãe, que na juventude também era bailarina e teve de abandonar a profissão para cuidar da filha - o que faz questão de deixar claro em uma discussão, em uma das cenas - podemos ver uma relação estável entre mãe e filha, onde conflitos de ideias impactam, porém dentro de limites que ao decorrer do filme vão se perdendo, conforme Nina mergulha cada vez mais a fundo não somente no papel, mas em um abismo de sentido.
Tendo como obstáculo a si mesma e, em particular, uma colega chamada Veronica com a qual desenvolve uma rivalidde, conforme a narrativa avança, as nuances entre rivalidade e romance se misturam, e é perceptível uma manipulação emocional por parte da amiga, o que já fica evidente desde o início, porém por estar tão centrada - em uma fixação digna de um bom descanso - não consegue enxergar o que muitas vezes está diante de seus olhos, mas vê coisas que fogem à realidade, sob o peso de uma mente que se perde enquanto busca algo inalcançável.
Cisne Negro não é apenas sobre obessão, é preciso encarar as relações sociais e a forma que as mesmas se contrõem dentro da organização, Thomas como líder não é uma figura carismática, e tem a sua parcela de responsabilidade no desencadeamento da insanidade de Nina.
Na companhia de dança vemos interações não como relações entre mãe e filha, mas relações de poder, onde o interesse faz personagens mascarar intenções, ensaiando por o seu grande momento, em uma correria monótona, mas significativa, onde o sentido se perde e se renova, cada vez mais intensamente.
A protagonista encara de frente a sua sombra, tal qual aspectos de si mesma que ainda não estava preparada o suficiente para lidar, indo além de seus limites para conseguir encarnar, factualmente, o Cisne Negro. dominar seus movimentos e emoções sem deixar-se dominar, em uma intensidade que vai custando a sua saúde e sanidade mental à medida em que avança.
Logo no início do filmes vemos Nina roubando o batom do camarim de Beth quando a mesma está indo embora da companhia de dança, mais tarde ela a visita no hospital ao sofrer o acidente, o mais interessante é que as duas mal possuem uma interação real, uma construção de diálogo que seja, apenas frases rápidas, o interesse real de Nina não é fazer amizade, nem o de Beth, ela se vê na posição em que Beth estava um dia, e Beth parece cansada.
A ideia de se deixar transpassar pelo outro ao ponto de moldar a sua personalidade, não como a do outro em si, mas o que este representa, quando interpretar já não basta, é necessário vivenciar se deixando levar pelo caos em uma estrada para o estrelato com um alto preço, a sanidade ou a própria vida.
A persistência em seu ápice mesmo diante das adversidades e até da morte.
Nas cenas finais do filme, onde a linha entre o real e o imaginário já não é mais tênue, porém quase inexistente, Nina se entrega por completo ao papel, vivenciando o Cisne Negro e colhendo as consequências de tal ato, o desgaste físico e psicológico que uma apresentação como o Lago dos Cisnes exige, porém em um impulso canalizado pelo desejo de se superar - custe o que custar.
Por fim, o Cisne Negro é o tipo de filme que parece soar monótono nos primeiros minutos justamente por focar no cotidiano inicialmente com seus detalhes mínimos e simplório e, aos poucos, no distanciamento psicológico desse cotidiano, o peso da narrativa aumenta conforme essa rotina parece oprimida pela fixação que Nina desenvolve pelo papel, ao ponto de se perder no mesmo.
Quase como que em um adeus ensaiado, o Cisne Negro personificado.
Fonte: Desbravando a Psique